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Dia da Terra, uma questão de atitude
Marina Silva – Ministra
do Meio Ambiente do Brasil
Neste
ano, o terceiro do milênio no qual depositamos tantas
esperanças, comemorar o Dia da Terra exige
reflexão e compromisso. O planeta não vive seus
melhores dias e nós, a assim chamada "espécie
superior", andamos inseguros a respeito de nossa própria
capacidade de fazer deste um mundo melhor. O signo é de
guerra, unilateralidade na resolução de
conflitos, arreganhos do crime organizado,
sensação de anomia e de abandono dos valores que
costumavam ser nossas balizas, construtores de sentido
existencial e códigos para ajudar a decifrar a
essência da condição humana. Nesse clima,
falar de paz virou coisa séria. Não basta a
estética, nem mesmo a ética, ou a inocência, ou o
devaneio. É preciso militância. E não só a
das ruas, circunstanciais e emotivas. Agora é também
questão de escolha racional, com as
conseqüências que isso envolve. É preciso
que a paz seja uma opção política.
Ainda
temos nos olhos as cenas terríveis do Iraque, pessoas
sendo despedaçadas pela morte ou
mutilação física e psicológica,
pela destruição de suas referências. Mas, na
contabilidade da guerra, são apenas danos colaterais,
assim como o cerceamento da liberdade de imprensa e a perda de
bens do patrimônio histórico da humanidade. Mesmo
aqui, a salvo deste horror, sentados no sofá diante da
TV, somos atingidos pela perda de valores, sentimos que nossa
vida também ficou pior. E sabemos que temos que fazer alguma
coisa. Não lá no Iraque. Aqui. Dentro da nossa
casa, na nossa vizinhança, na nossa cidade, no nosso
país. No Dia da Terra, ou pensamos nisso tudo ou
será uma data lamentavelmente vazia. Ela pode ser um
símbolo forte do que parece estar-se perdendo: os
valores humanos, espirituais e os naturais, entendidos, esses
últimos, como aqueles que remetem à
ligação essencial de cada um com o habitat
planetário, obscurecida pela aparente
auto-suficiência da tecnologia e dos "poderes" humanos.
Há
certo consenso a respeito da proteção ambiental. Todos
são a favor, mas, boa parte, só se for no "meio
ambiente" alheio. Quer-se o bem da floresta amazônica,
já as obrigações ambientais da empresa...
Salvem-se as tartarugas e baleias, já reduzir o
próprio lixo...Combata-se a poluição, mas
não o uso intensivo do carro particular. As unanimidades em prol
da paz, do meio ambiente, do combate à pobreza, às vezes
esquecem que é preciso construir na prática a
solução para aquilo que incomoda a
consciência. E que a construção
começa no indivíduo e no que ele está disposto a
fazer - ou a deixar de fazer - para a vida melhorar. Esta sim é
uma questão de atitude. Continuamos a produzir desastres
ambientais e humanos. Eles lembram que ainda estamos na
barbárie. A civilização de fato
avançada ainda está a caminho e é tarefa
para muitas gerações. Agride-se a Terra porque ela
é vista apenas como fonte e suporte de bens para o
mercado; destroem-se pessoas porque são vistas apenas
como consumidoras e contingentes geopolíticos.
Não sem razão o petróleo é um
personagem tão destacado nas guerras presentes e passadas no
Oriente Médio.
Também
não sem razão as causas ambientais cada vez mais se
confundem com seu espelho social e ético. Hoje
procuramos soluções socioambientais, não
só ambientais. Falamos em justiça ambiental como
parte intrínseca da justiça social. A qualidade
de vida é direito humano, assim como a saúde, a
educação, a habitação. E
acumulam-se evidências de que a atividade
econômica não precisa ser predadora. É
desejável, viável e factível o caminho do
desenvolvimento sustentável. Nada foi e nada
será fácil na trajetória dessas idéias,
mas elas se impuseram como alternativa e conquistaram adesões -
ou, no mínimo, provocaram constrangimentos - em todos os
segmentos da sociedade. Mexeram naquele recanto da mente e das
emoções no qual está intacta a
necessidade de ideais comuns e a crença de que um mundo
melhor e sustentável é possível.
Nós procriamos e criamos; é inevitável ter amor
pelo futuro e compaixão pelo presente. O Dia da Terra
exige uma atitude.
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