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As Raças Indígenas da América

Carla Aline Kryszczun*


No dia 18 de maio é comemorado o Dia das Raças Indígenas da América - aos arqueiros da história: Kuikuro, Tupi (Asurini, Guarani, Araweté), Kayapó, Panará, Krahô, Xerente, Xavante, Kaingang, Timbira, Bororo, Kayabi, Terena, Desana, Tupinambá, Kaxinawa, Tukano, Yanomami, Trumai, Andirá, Tapajós, Kaapor, Tiryó, Wanana, Karipuna, Omaguá... que tanto nos ensinaram e ainda ensinam a sobreviver.

Uma íntima relação com a natureza, uma cultura baseada na tradição, magia e medicina natural. Estas são algumas das características comuns entre as tribos indígenas do Brasil e da América. Além destas, podemos citar a resistência em manter acesos seus costumes e as lutas por espaço territorial e direito à diferença. São os aspectos culturais, políticos e sociais que formam a identificação destas raças, o que faz com que o grupo reconheça-se como índio, seja reconhecido pela sociedade não-índia e permita que as mudanças na cultura não alterem sua identificação.

Com esta caracterização, o saber indígena tem tentado se perpetuar. Para as Raças Indígenas da América, reconhecer que o índio sofre e luta e perceber as dificuldades preconceituosas que encontra no mundo moderno, é importante e é tema em qualquer discussão etnológica. Outra coisa é reconhecer a força e inteligência dos povos indígenas e parabenizá-los pela persistência.

A parte bonita destes séculos de luta é ver a riqueza incomensurável de culturas que de dizimação em dizimação, de processos de aculturação e de catequização à escravidão se mantêm e podem orgulhar-se de ter um dia em que a sociedade não-índia tem que se curvar perante sua força, seu conhecimento e sua SABEDORIA.

Manter culturas acesas através de séculos de terríveis confrontos e mudanças sociais é digno de um povo lutador, inteligente e símbolo mais forte da história viva mundial: o povo indígena das Américas.

Muito se fala, se admira e se engrandece a cultura do Egito Antigo. Há de se reconhecer sua grandeza e riqueza. Mas as dinastias e faraós cansaram-se, renderam-se às mudanças e ficaram no passado histórico. Os povos indígenas da América lutaram, sofreram perseguições, enfrentaram mudanças, e aí estão: em bem menor número do que o inicial, enfraquecidos, mas presentes, contando um passado histórico, porém construindo a história hoje e transmitindo às suas gerações a carga hereditária social para continuar uma história futura.

Grandes civilizações são as da América indígena, que além de servirem ao não-branco, ensinaram-no muito de sua cultura, sendo honrosos em seus princípios de divisão.

Nos séculos XVI e XVII exploradores embrenharam-se no Rio Amazonas atrás de escravos, terras e tesouros mitológicos. Mas o que encontraram de mais precioso foram os relatos de ricas e complexas culturas. As terras às margens do Rio Amazonas eram organizadas em “províncias/estados” pertencentes aos diferentes povos. Estas sociedades viviam em constante comunicação, seja para transações comerciais e políticas ou mesmo em situações de guerra (Mota, Lúcio, 1994). As regiões andinas e amazônicas são as mais ricas histórica, antropológica e arqueologicamente, por serem grandes potências de sociedades indígenas complexas. As cerâmicas e vestígios materiais indígenas que a arqueologia e a antropologia vêm descobrindo em toda América, revelam enormes variações e fases culturais datadas de até 6000 a.C (do livro Archeologia geral, 1934). Suas contribuições e desenvolvimento vêm acontecendo através da história nos níveis não só culturais, mas ideológicos e ecológicos.

O mito do indígena passivo é desacreditado pelo próprio fato de ainda existirem e deixarem na sociedade não-índia marcas de sua identidade cultural. Foram e são sociedades duras em sua luta pela liberdade e contra os vilipêndios a que são submetidos.

Apesar de ágrafos em sua maioria e com uma parcela de sociedades com proto-escrita, os povos indígenas da América possuem incomparável qualidade de transmissão oral, que permite que a tradição seja passada de geração em geração do mesmo modo e com os mesmos exemplos. Além disso, possuem a arte cerâmica em diversas tribos e a pintura rupestre que, com inscrições, transmitem costumes, detalhando aos arqueólogos e antropólogos sua ordem de execução das tarefas, os executadores e toda hierarquia e processo de desenvolvimento da vida diária indígena por vários séculos.

Estas histórias fantásticas da estruturas social, política e religiosa, além do cotidiano de rituais, etiquetas e educação só são encontrados em livros específicos de etnografia/etnologia. Não há divulgação da maravilhosa e rica história destes povos de cultura diferente da capitalista do mundo não-indígena. Não há interesse dos meios de acesso à grande massa, a mídia, em levar a conhecer mais a fundo tais riquezas da história humana.

Estas sociedades vêm sendo “saqueadas” pela história, pela mídia e pelo desprestígio na ousadia de caracterizá-los por “primitivos”. Mas isto é outro problema.

 

* Carla Aline Kryszczun, cientista social e colunista do jornal - O Pioneiro