Apicultura
no semi-árido nordestino
Por
Sérgio Luiz de Oliveira Vilela
Estudos
realizados pela Embrapa Meio Norte revelam que uma nova atividade agrícola
está mudando a paisagem sócio-econômica de alguns
municípios localizados na região semi-árida do Estado
do Piauí. Trata-se da apicultura, atividade econômica que
resulta na produção de mel e outros produtos derivados do
trabalho das abelhas.
Estudos
sobre a cadeia produtiva da apicultura no Piauí dão conta
de que o crescimento dessa atividade, no Estado, é impressionante.
O último Censo Agropecuário (1995/1996) registrou a existência
de aproximadamente 9.500 famílias envolvidas na apicultura. No
entanto, os dados da Embrapa, cuja pesquisa foi realizada entre 1998 e
1999, já identificam a existência de cerca de 18.000 famílias
envolvidas diretamente nessa atividade, sem contar as ocupações
indiretas que podem dobrar esse número. O Banco do Nordeste tem
sido considerado um dos principais responsáveis por esse crescimento,
tendo liberado algo em torno de R$20 milhões para financiamento
a cooperativas e associações de pequenos apicultores, entre
1995 e 1998.
Na
prática, os agricultores que antes priorizavam o feijão,
o milho, o algodão e outras culturas dependentes de chuva, passaram
a apostar mais na apicultura, o que fez com que essa atividade passasse
de complementar a principal, em relação aos aspectos de
geração de renda para essas famílias. De fato, a
renda gerada pela apicultura é maior e mais segura do que a das
outras culturas, tendo em vista o crescimento do mercado dos produtos
orgânicos e os bons preços oferecidos aos produtos apícolas,
devido às suas conhecidas propriedades alimentícias e terapêuticas.
Além disso, é uma atividade agrícola com menor dependência
das chuvas.
O
Estado do Piauí possui condições agroecológicas
privilegiadas para a produção de mel, por possuir uma grande
diversidade de ecossistemas, que vão desde regiões com características
mais próximas da floresta amazônica, até as caatingas
da região semi-árida, passando pelos cerrados, além
das muitas áreas de transição. Esses aspectos têm
feito com que o Piauí ocupe hoje a segunda posição
no ranking dos maiores produtores do Brasil.
Um
outro aspecto que merece relevância é o fato de essa atividade
ter em torno de setenta por cento dos seus produtores localizados na porção
semi-árida do estado, onde se destacam as microrregiões
de Picos e São Raimundo Nonato. É uma área extremamente
carente de atividades que gerem ocupação e renda para os
seus habitantes, por ser sempre muito castigada pelas secas. No caso da
apicultura, períodos de estiagem em determinadas épocas
do ano podem ser importantes aliados dessa atividade, porque favorecem
o desabrochar das flores de importantes plantas melíferas, como
o marmeleiro, a aroeira, o juazeiro e o cajueiro.
O
estudo sobre a cadeia produtiva da apicultura piauiense indica que o mel
produzido é apto a receber o selo de qualidade, como produto orgânico,
por ser de origem de plantas silvestres, ou isentas de contaminação
com agrotóxicos, e ser produzido por abelhas sadias, que não
demandam a utilização de antibióticos para o combate
a doenças. Isso vai possibilitar o incremento de algo em torno
de trinta por cento no valor do mel e o seu credenciamento para exportação.
Aliás, a exportação é um objetivo que começa
a ser perseguido pelas principais entidades de apicultores do Piauí,
sendo que algumas já estão em fase de negociação
com países europeus, os quais têm demonstrado grande interesse
em adquirir o produto. As empresas representantes desses países
estão dispostas, inclusive, a financiar a melhoria das condições
de produção, para que os apicultores atendam a todos os
requisitos da certificação.
Esse
cenário já começa a estimular empresas de grande
porte, seja de capital local ou extra-local, a se instalar no Estado.
Empresas beneficiadoras do mel e produtoras de equipamentos já
estão formalizando seus respectivos interesses em investir no Piauí,
o que exigirá aumento no nível de profissionalização
da apicultura praticada, ainda pouco profissionalizada.
A
rapidez e a magnitude do crescimento dessa atividade têm elevado
significativamente a sua importância sócio-econômica,
o que vem estimulando os governos estadual e federal a demonstrar preocupação
em apoiar a atividade e seus integrantes, através de políticas
públicas.
(*)
Pesquisador da Embrapa Meio Norte - E-mail: awefio@cpamn.embrapa.br |