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O que são Créditos
de Carbono?
16-12-2003 - por Amyra El Khalili
Créditos
de Carbono são certificados que autorizam o direito de poluir.
O princípio é simples. As agências de proteção
ambiental reguladoras emitem certificados autorizando emissões
de toneladas de dióxido de enxofre, monóxido de carbono
e outros gases poluentes. Inicialmente, selecionam-se indústrias
que mais poluem no País e a partir daí são estabelecidas
metas para a redução de suas emissões. A empresas
recebem bônus negociáveis na proporção de suas
responsabilidades. Cada bônus, cotado em dólares, equivale
a uma tonelada de poluentes. Quem não cumpre as metas de redução
progressiva estabelecidas por lei, tem que comprar certificados das empresas
mais bem sucedidas. O sistema tem a vantagem de permitir que cada empresa
estabeleça seu próprio ritmo de adequação
às leis ambientais. Estes certificados podem ser comercializados
através das Bolsas de Valores e de Mercadorias, como o exemplo
do Clean Air de 1970, e os contratos na bolsa estadunidense. (Emission
Trading - Joint Implementation)
Há
várias empresas especializadas no desenvolvimento de projetos que
reduzem o nível de gás carbônico na atmosfera e na
negociação de certificados de emissão do gás
espalhadas pelo mundo se preparando para vender cotas dos países
subdesenvolvidos e países em desenvolvimento, que em geral emitem
menos poluentes, para os que poluem mais. Enfim, preparam-se para negociar
contratos de compra e venda de certificados que conferem aos países
desenvolvidos o direito de poluir.
Segundo
Sergio Besserman Vianna - Presidente do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), “O aquecimento global é uma
realidade inegável. Se ele não for tratado pelo mercado
financeiro, algum outro mecanismo terá de ser criado para fazê-lo”,
disse para a Folha de São Paulo.
Por
sua vez, Eduardo Viola, Professor Titular do Departamento de Relações
Internacionais e Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB,
analisa: “Está claro hoje que para proteger o ambiente precisamos
ir além dos mecanismos rígidos de comando e controle que
predominaram no mundo nos últimos 30 anos”.
A
criação de mecanismos de mercado que valorizam os recursos
naturais é uma extraordinária inovação cujo
primeiro exemplo deu-se nos EUA com a emenda de 1990 ao Clean Air de 1970.
Por causa dessa Emenda de 1990, que criou as cotas comercializáveis
de poluição nas bacias aéreas regionais dos EUA,
a poluição do ar diminuiu numa media de 40% nos EUA entre
1991 e 1998. Varias iniciativas, seguindo o mesmo princípio, estão
em processo de ser adotadas em vários países e internacionalmente
(o Protocolo de Kyoto 1997 estabelece as cotas de emissões de carbono
comercializáveis entre os países do Anexo 1 e o Clean Development
Mechanism entre países desenvolvidos de um lado e médios
e pobres do outro).
Os
volumes do Mercado de Carbono têm estimativas das mais variadas,
e na maior parte das matérias publicadas pela imprensa os índices
não batem. Cada fonte indica um dado diferente, vai desde U$ 500
milhões até US$ 80 bilhões por ano - os analistas
de investimentos consideram o volume estimado pelos especialistas insignificante,
comparado com alguns setores que giram volumes equivalente num mês.
O
que pode haver é uma forte demanda por países industrializados
e uma expectativa futura de que esse mercado venha a ser um “grande
negócio”, uma fonte de investimentos, do ponto de vista estritamente
financista. Neste caso, a posição do Brasil é estratégica,
em função de uma série de considerações
que faremos adiante.
Qual
a posição do Brasil?
Acontece
que, no caso do Brasil, como também no da África, é
exigida uma série de certificações e avais em função
dos riscos de crédito, por todas as questões de credibilidade:
o chamado “Risco Brasil”. O Brasil não é considerado
no mercado internacional um bom pagador. Já tivemos escândalos
financeiros que assustaram investidores sérios, atraindo ao país
investimentos de curtíssimo prazo, capital especulativo e volátil,
além dos chamados farejadores das Ilhas Cayman, que adoram negócios
“nebulosos” para ancorar as operações de lavagem
de dinheiro. Tudo isso entra na contabilidade dos empréstimos internacionais,
e o risco que corremos é de acontecer de o dinheiro com taxa baixa
ou a fundo perdido chegar na mão do pequeno com taxas altíssimas.
Não se deve esquecer ainda da vulnerabilidade deste indivíduo
diante de contratos complexos, projetos duvidosos e pressões de
especuladores, interessados em comprar terras abaixo do preço do
mercado para se credenciarem a esses investimentos.
Existem
grandes diferenças entre as CDMs e as commodities ambientais. Os
CDMs ou MDLs (Mecanismos de Desenvolvimento Limpo) em síntese,
são alternativas que implicam em assumir uma responsabilidade para
reduzir as emissões de poluentes e promover o desenvolvimento sustentável.
Trata-se de um mecanismo de investimentos, pelo qual países desenvolvidos
podem estabelecer metas de redução de emissões e
de aplicação de recursos financeiros em projetos como reflorestamentos,
produção de energia limpa. As empresas, por exemplo, ao
invés de utilizar combustíveis fósseis, que são
altamente poluentes, passariam a utilizar energia produzida em condições
sustentáveis, como é o caso da biomassa. Existe, enfim,
uma gama enorme de projetos ambientais e operações de engenharia
financeira que podem ser desenvolvidos no Brasil, proprietário
das sete matrizes ambientais. (água, energia, biodiversidade, madeira,
minério, reciclagem e controle de emissão de poluentes -
água, solo e ar)
Nem
todo projeto de CDM gera necessariamente uma “commodity tradicional”
e muito menos uma “commodity ambiental”. Explico: a troca
de créditos de cotas entre países desenvolvidos, que estabelecem
limites de “direitos de poluir” (Joint Implemetation e Emission
Trading), pode ser transformada em títulos comercializáveis
em mercados de balcão (contratos de gaveta - side letters), ou
em mercados organizados (Bolsas, Interbancários, Intergovernamentais,
etc). Mas afirmar que poluição é mercadoria é
um absurdo conceitual e chamá-la de “commodity ambiental”
é uma contradição.
Em
primeiro lugar, a poluição não pode ser considerada
mercadoria, ainda mais quando se deseja eliminá-la. Em segundo,
não serão os pequenos produtores os contemplados nesta troca,
porque ela é realizada entre grandes corporações
nacionais e transnacionais. Além disso, só é possível
realizar tais trocas em um mercado fortemente globalizado, já que
esses títulos migrarão de um país para o outro com
a mesma velocidade que migram os investimentos globalizados, num círculo
restrito de países mais ou menos desenvolvidos, o que vai contra
todas as reivindicações do Fórum Social Mundial realizado
no Rio Grande do Sul.
Se
de um lado as commodities ambientais têm como seu principal diferencial
o modelo da pirâmide, no qual os contemplados pelos recursos financeiros
devem diretamente ser os excluídos, o trading emission (compra
e venda de créditos de carbono) atendem ao tradicional modelo das
operações financeiras que todos nós já estamos
cansados de conhecer. Ele apenas repete um mecanismo já explorado,
com a agravante de ser falacioso, trazendo o argumento ambiental e causando
confusão de conceituação.
Mas
o CDM pode e deve ser aplicado ao conceito “commodities ambientais”,
observadas duas condições: se o projeto de controle de emissão
de poluentes estiver gerando uma “commodity” como energia
(biomassa), madeira, biodiversidade, água, minério, reciclagem,
e se o modelo vier a promover a geração de emprego e renda
e financiar educação, saúde, pesquisa e preservação
de área protegidas. Em outras palavras, ela precisa também
atender às reivindicações do movimento ambientalista
e de grupos de direitos humanos, engajados nesta luta ingrata para preservar
o meio ambiente. Nesse sentido, um projeto de reflorestamento com pinus
e eucalipto não pode invadir uma área como Amazônia,
ainda que a comunidade científica prove com todos os meios que
pinus e eucaliptos captam mais carbono do que uma floresta nativa.
Faca
de dois gumes
Veja,
então, a diferença. Não importa para as “commodities
ambientais” o que capta mais carbono. Importa, porém, o que
gera mais emprego e mantém mais áreas de preservação.
O modelo de “commodities ambientais” que propomos debater
é exatamente produzir uma trava que impeça que um ecossistema
seja prejudicado para favorecer a exploração comercial do
outro. O marketing dos países ricos, prometendo dinheiro aos projetos
ambientais dos países pobres, pode ser uma faca de dois gumes para
o meio ambiente.
Existe
o risco dos certificados de carbono serem transformadas apenas numa operação
financeira para dar lucros aos seus investidores e acabar não gerando
nenhuma vantagem para o meio ambiente. Isto é, se os instrumentos
econômicos forem uma promessa de capturar carbono no futuro.
Como
ocorreu, por exemplo, muitas vezes no caso dos incentivos florestais,
quando muita gente pegou dinheiro subsidiado do Governo para plantar,
mas não plantou ou recebeu dinheiro para plantar mil hectares,
terminou plantando somente 200 hectares. Nestes casos, as travas para
se proteger dos especuladores mau-intencionados estão sendo articuladas
com o sistema de produção das commodities ambientais.
Sempre
existe esse risco quando lidamos com o mercado financeiro. Um dia após
o outro, criam-se contratos com cláusulas complexas e expressões
em inglês não raras vezes escondendo negócios de interesse
estrangeiro.
Se
isso já é muitas vezes difícil para os especialistas
da área entenderem, o que se dirá do pequeno produtor ou
do proprietário de uma área florestal que deseja tornar
sua floresta um projeto com viabilidade econômica, devendo respeitar
as leis de conservação, códigos florestais e outras
exigências. Estamos cientes de que a certificação
é um caminho, mas não a solução do problema,
pois para certificar o produto é necessário produzir em
condições sustentáveis, o que requer investimentos.
Tudo isso é caro e leva tempo e dinheiro.
O
que acontece hoje é uma concorrência desleal com as altas
taxas de juros. Qualquer negócio de longo prazo no Brasil torna-se
incompatível com os lucros que os títulos financeiros garantem,
sem que seja necessário se preocupar com chuvas, investimentos
na produção, a plantação, a colheita, o pagamento
de funcionários. Isso explica porque, ao invés de ser aplicado
diretamente na produção, o dinheiro subsidiado migra para
a especulação financeira.
Mas
isso só acontece com a participação de agentes que
não são da atividade produtiva, até porque o produtor
sozinho, que sequer sabe como captar o recurso para sua lavoura, sabe
tampouco atuar no mercado. Ele tem muitas vezes seu CPF ou CNPJ da cooperativa
usado em operações de lavagem de dinheiro. E quando quebram,
prejudicam a credibilidade de todos: vide a Cooperativa Agrícola
de Cotia e, mais recentemente, o caso da Exportadora das Cooperativas
Brasileiras - Eximcoop. Nem precisamos ir muito longe - agora temos os
escândalos financeiros que revoltaram os mercados de capitais em
2002 e jogaram as Bolsas de Valores no chão.
A
crise no mercado de ações tem sido comparada com os colapsos
provocados pelo crash de 1929 e pelas crises do petróleo em 1973
e 1974. Os Créditos de Carbono, se mal desenhados e lançados
no mercado no afã da euforia, apenas para suprir uma expectativa
de captar investimentos internacionais, podem mascarar a ação
de muitos “oportunistas de negociatas”.
Ao
implantar os Fóruns Regionais BECE (Brazilian Environment Commodities
Exchange), no Projeto CTA, estamos tentando descobrir os meios de resolver
o problema. Eliminar o risco é impossível, uma utopia. Mas
podemos amenizá-lo identificando quem realmente merece ser receptor
deste dinheiro, traçando com a comunidade uma estratégia
de elaboração e de fiscalização de projetos
ambientais com comprometimento, para que os produtores e comunidades extrativistas
obtenham investimentos sem que os recursos passem pelas mãos de
“inimigos ocultos”, expertos na arte de desvirtuar projetos
ambientais.
Por
isso criamos a proposta “BECE”, genuinamente brasileira, porque
este é um problema brasileiro. Precisamos mapear as nossas reais
necessidades e fazer a lição de casa para então conseguirmos
também adotar uma postura mais séria e fazer propostas mais
concretas nas relações com a ALCA, Mercosul, no Protocolo
de Kyoto, etc. Olhando de frente com coragem e determinação
os nossos problemas, chegaremos mais rápido às soluções,
sem ficar enxugando lágrimas em lençóis porque tivemos
nossas “commodities tradicionais” excluídas dos acordos
internacionais.
Outro
aspecto crucial de nosso debate é como chegar aos pequenos e fazer
com que estes tenham as mesmas oportunidades de financiamento de seus
projetos, seja na área de educação, saúde,
meio ambiente ou agropecuária. Estamos, em suma, falando da reconstrução
econômica do país, e os projetos para produção
de commodities ambientais são soluções potenciais
num momento em que estamos fartos de somente enxergar problemas.
O
Projeto CTA (www.sindecon-esp.org.br) fará das palavras de Eduardo
Viola a missão de BECE: “O Século 20 nos ensinou,
com alegria e tragédia extremas, como o mercado é o mais
eficiente mecanismo alocativo inventado pela humanidade. Também
nos ensinou que um mercado sem pleno Estado de Direito e sem indivíduos
educados e auto-reflexivos produz uma sociedade extremamente materialista
que bloqueia as potencialidades de evolução humana. Precisamos
avançar na direção de um mercado transparente e conscientemente
regulado pela sociedade, onde não exista espaço para informações
privilegiadas, nem cláusulas ad hoc para favorecer alguns dos competidores,
nem possibilidades de lavagem de dinheiro procedente de atividades ilícitas.
(...) Acredito que o BECE- merece um apoio incisivo do conjunto da comunidade
ambientalista para que se realizem urgentemente estudos sistemáticos
econômicos, ecológicos e jurídicos com o objetivo
de sua implementação. Poderia ser uma grande contribuição
iniciada no Brasil para o desenvolvimento sustentável em escala
planetária.”
Com
a proposta BECE e a elaboração de Projetos Econômico-Financeiros
para os Mercados de “Commodities Ambientais”, estaremos colocando
a preservação ambiental na contabilidade como ativo/investimento
e não como passivo/prejuízo, tentado mudar a visão
dos empresários e investidores hoje em relação à
questão sócio-ambiental. Especialmente, onde as commodities
ambientais poderiam ajudar a luta pelo combate ao efeito estufa que está
comprovadamente aquecendo o planeta e provocando prejuízos enormes
com o agravamento das secas, chuvas, tempestades.
Fonte:
Revista Eco 21, ano XII, No 74, janeiro/2003. |