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03/09/03 - Amyra El Khalili 
A economista Amyra El Khalili é uma profissional eclética, que gostaria que o dia tivesse o dobro de horas. Como está restrito a 24 horas, ela gasta a maior parte do tempo viajando pelo Brasil e enfurnada no Projeto BECE-Brazilian Environmental Commodities Exchange (Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais), conectada à internet enviando e recebendo informações sobre negócios na sua área de atuação, ou seja, o mercado futuro e de capitais dentro de um ângulo mais humanista, ou debatendo assuntos de interesse da ONG CTA - Consultants, Traders and Advisors. Amyra, engenheira financeira, trabalhou duas décadas no mercado de futuro e de capitais, sendo uma das primeiras operadoras de pregão da BM&F.
1 - O que são commodities ambientais? Como foram criadas e como se dá o seu funcionamento?
As Commodities Ambientais (C. A.), são mercadorias originárias dos recursos naturais em condições sustentáveis, cujas matrizes são: água, energia, biodiversidade, madeira, minério, reciclagem e controle de emissão de poluentes - na água, no solo e no ar. Diferentes das Commodities Tradicionais, convencionais, as Commodities Ambientais pertencem à comunidade no seu conjunto, uma vez que são explorados bens difusos, ou seja, bens que pertencem à sociedade, como por exemplo, a água ou as florestas. A palavra "commodity" é uma expressão mercadológica que tem diversas conotações e entendimentos para o sistema financeiro que traduz a mesma - ao pé da letra - como "moeda", porque são negociadas de acordo com padrões internacionais de produtividade e qualidade para entrega física - exportação. As Commodities Ambientais se desenvolveram ao longo da história, mas não estavam conceituadas, nem tampouco valorizadas, pois os interesses econômicos dos grandes capitalistas inviabilizaram o acesso das populações extrativistas e dos mais carentes de informação no mercado para comercializá-las. O surgimento destas commodities do meio ambiente se deram com a existência do ser humano ao trocar o primeiro pedaço de carne por sementes, ou quando as mulheres berberes à beira dos rios de água doce manejavam o trigo para sustentar a prole, enquanto seus companheiros negociavam as safras de grãos e as ajudavam na semeadura e co-lheita. O estudo técnico-científico de origem brasileira ocorreu no final de 1989 e começo de 1990, motivado pela concentração de riscos nos mercados de futuros, chamados derivativos, quando um grupo de operadores de commodities tradicionais discutia o quanto ganhavam e, proporcionalmente, quantas pessoas morriam nas guerras para cada dólar lucrado nas bolsas de commodities e futuros com petróleo, metais e moedas. Fizemos, então, uma aposta: quem conseguiria desenvolver uma engenharia financeira que invertesse o modelo ortodoxo das operações financeiras e, ao invés de ganhar com a morte, criar um mecanismo que desse ganhos com as vidas de mais e mais pessoas? Destes apostadores, fui a única pessoa que sobreviveu e levou a aposta adiante (meus amigos faleceram em acidentes, cometeram suicídio ou tiveram enfarto por que não agüentaram a pressão dos mercados).
2 - O que significa para o Brasil o desenvolvimento deste mercado de commodities ambientais, sob o aspecto sócio-econômico?
Segundo os especialistas Geradores de Negócios Socioambientais nos Mercados de Commodities (CTAs): "Os projetos de commodities ambientais trazem conceitos e práticas que são inovadores, oferecem alternativas viáveis para contrapor-se ao modelo das commodities tradicionais, buscando neutralizar os vícios concentradores e predatórios trazidos pelo mercado convencional, onde as grandes corporações e poucos países desenvolvidos, detentores exclusivos de capital e tecnologia de ponta, usufruem de inúmeras vantagens, que vão da economia de escala, com amplitude global, à internalização dos lucros, aliado à socialização dos prejuízos, agravado pelo fato de que o sistema acentua a exclusão, separando na plataforma social, os trabalhadores e os assistidos. Nas C.A. busca-se a inserção dos assistidos no mercado, em condições de igualdade com os trabalhadores. Finalmente, commodities ambientais é muito mais do que um modelo alternativo de desenvolvimento sustentável; é o resgate de princípios e valores universais, em que se busca a inclusão social sem o assistencialismo e a dependência sobejamente conhecidos no modelo tradicional. Nas commodities ambientais resgata-se a dignidade e o respeito pelo ser humano, priorizando sempre o coletivo, até porque não existem projetos de commodities ambientais sem a participação ativa da comunidade, muito menos com um único financiador ou patrocinador. A convivência deste modelo em que a meta é o desenvolvimento de uma sociedade digna, ética e participativa, com as commodities tradicionais ou com as outras formas convencionais de exploração econômica, limita-se à busca de parcerias e de interesses convergentes para o desenvolvimento, elaboração e implantação de projetos de commodities ambientais. Efeitos microeconômicos com a implantação de Projetos de Commodities Ambientais nas comunidades: Geração de Emprego e Renda, com inclusão social; Geração de novos mercados, produtos e serviços; Cria novos hábitos de consumo, potencializando-o;Desenvolvimento da atividade local (com redução da economia informal); Elevação da conscientização ambiental; Aumento da integração social (cidadania, qualificação e inclusão); Melhoria da qualidade de vida; Melhores perspectivas para gerações futuras; Criação e fortalecimento de organizações do terceiro setor e fomento à formação de parcerias, criando-se, desta forma, micro-organizações auto sustentáveis (profissionalização da população local). Efeitos macroeconômicos com a implantação dos Projetos em Commodities Ambientais nas políticas públicas: Criação de riquezas (aumento do PIB); Aumento de arrecadação fiscal; Aumento da mobilidade social; Melhoria na distribuição de renda; Inclusão do Legislativo como regulador, evitando gastos desnecessários; Melhoria da Saúde Pública; Redução da violência; Redução dos gastos (custos ambiental e social) com políticas públicas compensatórias; Reorientação da política fiscal, com incentivo e proteção ao meio ambiente; Reorientação dos investimentos públicos com priorização para saúde, educação e preservação ambiental; Redução da carga tributária do país; Passagem de um país puramente extrativista para um país conservacionista e preservacionista. Projetos em Commodities Ambientais potencializam o mercado de trabalho para: economistas, outros profissionais, comunidade e futuras gerações: Pelo aumento da procura por profissionais especializados, formados no conceito de C.A.; Inserção da categoria dos economistas no mercado de trabalho de forma não-depreciativa (com inclusão do conceito de responsabilidade social e ambiental); Valorização profissional dos economistas; Integração profissional (projetos em C.A. são multidisciplinares); Ampliação do mercado de trabalho, em função de novas e crescentes demandas por profissionais multidisciplinares; Comprometimento com a promoção do desenvolvimento sustentável; Importância da preservação de valores históricos, artísticos, culturais, paisagísticos, antropológicos, sócio-ambientais; Inclusão social; Mudança de paradigmas (inserção dos excluídos, aposentados e minorias em geral); Quebra de paradigmas trazidos pelas C.A. (sociedade digna, ética e participativa), com maiores possibilidades de ocupação, empregabilidade e convivência social, gerando alternativas e oportunidades de trabalho, principalmente para os mais jovens. (ver www.bece.org.br)
3 - Como o Brasil está inserido no mercado de commodities ambientais?
O Brasil é o único país no Mundo com dimensões continentais que detém recursos naturais estratégicos suficientes para abastecer o planeta de acordo com o Relatório " Estado do Mundo" 2003, WWI - Worldwatch Institute/UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica. Isto significa que estamos na dianteira deste novo mercado, tanto no aspecto do lastro (moeda ambiental), quanto no técnico-científico ao desenvolvermos uma engenharia financeira sofisticada, debatendo com as comunidades a metodologia produtiva, critérios de certificação, classificação, e o principal: o sistema de comercialização e financiamento para permitir a migração da extração ilegal e predatória para o crescimento econômico equilibrado entre as forças de mercado, sem estressar os biomas nacionais (caatinga, cerrado, pampa, marinhos, mata atlântica, amazônico, pantanal, costeiros, tais como as restingas, manguezais e marismas). Biomas com riquezas incalculáveis!
4 - Amyra, em um artigo de sua autoria, você afirma que a missão dos commodities ambientais é a busca da paz mundial. Como você exemplifica isso?
O Brasil, por suas características culturais, com a miscigenação de várias etnias, clima propício para rotação de safras e diversidade na agropecuária e com um povo cordial, não pode ficar a mercê de tratados e protocolos internacionais sobre a "commoditização" dos recursos naturais estratégicos, enquanto os órfãos de guerra e secas migram desesperados à procura de um país misericordioso que lhes dê pão e água. As Commodities Ambientais estão sendo construídas de acordo com as Cartas dos Direitos Humanos, dos protocolos e manifestos que estabelecem os direitos básicos para que um cidadão possa viver com dignidade e justiça social. Não é uma indústria de sanduíches do Mc Donalds, ou uma super produção de Coca-Cola, ou safras recordes de soja e açúcar, mas a valorização de cada grão de milho que vale um milhão ao explorar com respeito as leis naturais, a biodiversidade espetacular deste país. Os holandeses chegaram aqui e fomentaram o mercado de flores com o Veiling-Holambra. Os japoneses colonizaram o cerrado através do Projeto Campo e hoje sabem perfeitamente onde erraram ao derrubá-lo para plantar soja em grande escala. A diversidade da produção agropecuária com o desenvolvimento sustentável gera em-prego e renda, dá esperança e pode alimentar outros povos famintos e desesperados. A PAZ só poderá ser alcançada quando todos os direitos humanos foram respeitados, principalmente os direitos elementares: o direito à água, alimento e moradia - o mínimo, o que se pede é o mínimo. As commodities ambientais são moeda forte: com um grão chegaremos a um milhão.
5 - O que é a
Rede Internacional BECE & REBIA?
A Rede BECE-REBIA é uma teia de intensas relações afetivas (clusters), ou seja, é uma rede solidária unindo difusores de informações, com o objetivo de registrar a história do desenvolvimento sustentável, fomentar e estruturar o mercado de “commodities ambientais” e "space commodities" através dos Núcleos de Estudos do Projeto BECE-(www.bece.org.br).
As “commodities ambientais” são mercadorias originadas de recursos naturais em condições sustentáveis, cujas as matrizes são: água, energia, madeira, biodiversidade, reciclagem, minério e controle de emissão de poluentes (água, solo, ar), bem como as "commodities espaciais", assim entendidas, que tratarão da propriedade intelectual, das idéias, dos saberes, da cultura dos povos, das artes, da qualidade de vida, das pesquisas e de todos os valores abstratos originados da capacidade humana individual ou grupal.
Os Núcleos de Estudos do Projeto BECE tem por objetivos e funções um fórum de alto nível estratégico, de caráter multi e interdisciplinar, que se propõe voluntariamente a contribuir na medida das possibilidades e responsabilidades de cada um na produção de documentos, esclarecimentos, orientações, reflexões, bibliografias, etc., assumindo a lista nucleosbece – (nucleosbece@yahoo.com.br) como a principal sala de reunião e ponto de encontro do Projeto BECE e a Rede BECE-REBIA e tendo por meta contribuir com o desenvolvimento ambientalmente sustentável, socialmente justo e viável economicamente no Brasil, estimulando e estruturando mercados de "commodities ambientais" e "space commodities" a serem controlados pela sociedade brasileira através de Fóruns do Projeto BECE e baseados na democratização da informação através da reunião de produtores e difusores de informação interessados numa economia mais solidária, ética e comprometida com as atuais e futuras gerações.
O cadastro da Rede BECE-REBIA é sigiloso. Os boletins eletrônicos são postados no (http://br.groups.yahoo.com/group/becerebia). As mensagens são divulgadas em língua portuguesa e, quando se trata de textos internacionais, desde que acompanhados de tradução. Os textos seguem na íntegra, no corpo da mensagem, por questões de segurança não são enviados arquivos anexados. São citadas as fontes e o email dos autores para que os participantes possam contatar seus possíveis parceiros sem intermediários. Preserva-se, assim, o direito à liberdade de expressão, com réplica e esclarecimentos dos argumentos, ficando o debate a respeito para as listas de discussões temáticas já existentes na Internet, nas quais atuamos como observadores, estimulando também a formação de novas listas. Assim, a Rede estabelece diversos "nós" de comunicação entre diferentes instituições e setores, com a participação entorno de 40.000 co-listados.
Em pouco tempo a Rede BECE-REBIA obteve alcance extraordinário, da Flórida a Costa Rica e países mais distantes como o Japão, onde há brasileiros traduzindo suas informações. A Rede “sente” o debate para cruzar as informações que são de interesse dos potenciais parceiros, identificando legítimas lideranças e projetos comprometidos com a filosofia do Projeto BECE, estimulando-os e orientando-os para aplicarem recursos financeiros em negócios socioambientais. Este é o nosso objetivo: fazer a informação chegar diretamente a quem interessa e, com isto, fazer a roda girar.
6 - Como você avalia a atual política ambiental brasileira?
É cedo para avaliar. Ainda estamos arrumando a casa, existem muitas pendências dos governos anteriores que foram carregadas ao longo dos anos. Não podemos esquecer que meio ambiente é assunto de longuíssimo prazo e não se pode fazer da política ambiental um palanque, com agendas e metas inalcançáveis. Há interesse deste governo nas questões ambientais mas a prioridade será sempre o social, daí a necessidade de conciliar as agendas, até porque uma depende diretamente da outra. É ai que está o diferencial: meio ambiente para as comunidades e não para uma elite que deseja preservar suas praias particulares e seus jardins para veraneio ou fazer esportes radicais porque é chique. A ministra Marina Silva está suando a camisa ao enfrentar o agribusiness internacional que é voraz e duro no queda; razão pela qual a política ambiental deve ser feita por todos nós; somos nós que estaremos orientando-a e apoiando-a, seja a Ministra Marina Silva bem como todo Governo LULA, com nossas ações e nossas teias na Internet com atividades in loco, muitos seminários, debates e cursos para conduzir esta política complexa que envolve praticamente todos os ministérios. O assunto é extenso e pode cair no vazio se não tivermos farol na mídia, pois não há comandante que consiga segurar o barco em oceanos tempestuosos e, quando estamos todos na mesma direção, qualquer sopro ajuda. Portanto, dentro deste quadro histórico de nossa política nacional, o Projeto BECE tem a missão de sinalizar os mercados ambientais e interferir nos mercados convencionais para que sejam harmoniosos e sustentáveis. A ONG CTA em parceria com o JMA (Jornal do Meio Ambiente), site do IBVA - Instituto Brasileiro de Voluntários Ambientais -, representado por seu presidente e editor, o jornalista Vilmar Berna, Prêmio Global 500 da ONU, formam a Rede Internacional de Comunicação CTA-JMA. Esta rede tem feito este trabalho, e está orgulhosa de ter parceiros dedicados e comprometidos com a boa informação como o site Ambientebrasil. Sem a parceria sincrônica e harmônica entre comunicação e informação, não há meios de se realizar as transformações necessárias na era da tecnologia da informação.
Conectados nesta grande teia, sem dúvida o caminho será mais tranqüilo e o sucesso inevitável!
Obrigado Ambientebrasil pelo APOIO!
Amyra El Khalili - Co-Editora
Email: (amyragrupo@terra.com.br)
Rede Internacional de Comunicação CTA-JMA
(www.jornaldomeioambiente.com.br)
(www.bece.org.br) - (www.ongcta.org.br)
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